Lar Doce Lar na Cidade do Cabo

Durante um mês, Javier, Natasa, Nayara e eu dividimos o apartamento super confortável e belíssimo na Arthur’s Road, 23, 608, Sea Point. Nosso lar doce lar na Cidade do Cabo.

Conhecemo-nos em março na escola de inglês. Javier alugou o apartamento junto com outros dois amigos, a bósnia Natasa e o espanhol Esteban, que retornou para a Espanha em maio. A brasileira Nayara entrou no seu lugar. Eu deixei minhas malas lá para dar um rolé de mochila dois meses pela África. Voltei em julho para a Copa do Mundo.

Nossa convivência foi curta, mas intensa e significativa. Acredito que para todos nós. Sentimo-nos como em uma família. E o apartamento como nossa casa. Lar Doce Lar.

Javier Brandoli, 37 anos, da Espanha, veio para a África do Sul para aprimorar seu inglês, viajar e trabalhar como jornalista para El Mundo e outras revistas de turismo. Natasa Muri, 36 anos, da Bósnia, veio estudar inglês. Nayara Menezes, 28 anos, do Brasil, também veio aprimorar seu inglês e trabalhar para Revista Viver Brasil cobrindo a Copa do Mundo.

Passamos o último mês tomando muitos vinhos sul-africanos, celebrando a vida, sob o comando dos sommeliers Natasa e Javier, que nunca deixavam faltar vinho em casa. Tivemos o prazer de saborear o delicioso feijão da Nayara, nossa cozinheira chef e relações públicas na Cidade do Cabo. Organizou dois almoços tipicamente brasileiros no terraço do apartamento. Que sorte a nossa!

Eles estão de partida. Sentirei saudades… Da minha família na África do Sul.

Javier, Natasa, eu e Nayara no terraço do apartamento.

Espetáculo de cores no pôr do sol na ponta da África. Do terraço do apartamento.

Por que Índia?

Algumas pessoas têm me perguntado: “Por que você quer viajar para a Índia?”.

É um sentimento. Sempre senti vontade de viajar para Índia. E sempre intuí que seria uma viagem longa.

Não sei explicar a origem deste sentimento.

Nunca estive na Índia. Todos dizem que as pessoas amam ou não suportam a Índia. Já ouvi estórias de pessoas que foram para lá para ficar um ano e só conseguiram ficar 3 dias. Imagino que o choque cultural para nós, ocidentais, seja forte. É preciso ir de coração aberto e estar preparado.

Eu sinto que ainda não estou preparada. Não sei ainda quando viajarei para lá.

Mas irei.

Aprendendo Inglês

Sempre quis aprender Inglês para viajar para a Índia. Como o Inglês é a língua oficial de lá, teria de aprender inglês para me comunicar e interagir com as pessoas.

Minha relação com línguas sempre foi assim. Resolvi aprender Espanhol porque queria viajar pela América do Sul e depois Espanha. Depois de um semestre num banco de uma sala de aula, parti para o mundo. Aprimorei meu Espanhol viajando pela América do Sul e no Caminho de Santiago.

Embora seja sagitariana, e como tal aventureira (ascendente e lua em Sagitário), o meu lado virgiano do signo planejou somente aprender Inglês depois de mochilar pela América do Sul e fazer o Caminho de Santiago, quando estivesse na véspera de  viajar para a Índia. Uma aventureira com planos programados, sem chances de alteração. Bem cartesiano! Linearidade e praticidade típicas de um virgiano! risos 🙂

Assim, nos meus planos virginianos, só depois do Caminho de Santiago, iria aprender Inglês. Só que não foi bem assim que aconteceu…

No início do Caminho de Santiago, só falava Espanhol. Quando alguém tentava conversar comigo em Inglês, dizia: “Don’t speak English”. Respondi isto durante umas 2 semanas, até que conheci um americano de Boston…

Foi amor à primeira vista. Apaixonei-me pelos seus olhos brilhantes, cheios de vida… Seu jeito doce e alma de menino. Sua forma cortês de tratar as pessoas. Lamentei tanto não falar Inglês… O destino me pregou uma peça (risos). Nunca me interessei pela cultura americana ou fiz planos de viajar para os EUA. Só queria aprender Inglês para ir para a Índia. Grande surpresa do destino.

Alguns dias depois, encontramo-nos de novo, por acaso. Eu pensei: “Eu tenho de falar alguma coisa”. Após fazer um esforço enorme para buscar lá no fundo do baú alguma palavra em Inglês gravada na minha memória, saiu um: “How are you?”. Dias depois encontramo-nos de novo, por acaso, em Burgos, após outro esforço de memória, saiu: “Nice to meet you”.

Depois disso, encontramo-nos de novo, por acaso, e começamos a caminhar juntos. Eu, o americano e 2 suíços. Caminhamos juntos cerca de 2 a 3 semanas. Um suíço falava Espanhol e o outro, Português. Assim, conseguíamos interagir e nos comunicar. A maioria das vezes, eles só conversavam em Inglês, porque o americano não sabia Espanhol, nem Português. Só de estar ali entre eles, ao voltar para o Brasil, percebi que meu ouvido abriu para o Inglês.

Infelizmente, eu e o americano não vivemos a paixão… Bem… isto é outra estória. Um dia escreverei sobre isto.

Antes de viajar para cá, fiz em torno de 8 aulas particulares de Inglês, para, pelo menos, passar na imigração (risos). É sério. O foco das aulas foi um vocabulário básico de viagem (aeroporto, imigração, restaurante, acomodação).

Cheguei aqui na África, ainda, compreendendo e falando muito pouco a língua inglesa. Comunicando-me, praticamente, com gestos. Felizmente, consegui chegar! Abusei da linguagem gestual! (risos) Conseguir passar na imigração!! Ehehehe!!

Antes de mochilar pela África, frequentei 6 semanas de aula de Inglês entre março e abril. Não foi o suficiente para manter uma conversa em Inglês, mas me concedeu um pouco mais de base para viajar.

Voltei para a Cidade do Cabo para aprender mais gramática e vocabulário. E, claro, curtir um pouco da atmosfera da Copa do Mundo. Eu percebi que meu Inglês melhorou muito durante estes 2 meses que eu mochilei pela África, principalmente na Tanzânia, onde não encontrei brasileiros. Falei e ouvi só Inglês. Voltei para a escola e pulei de nível.

Estou aprendendo Inglês com os africanos. Como é a sua segunda língua, falam Inglês mais devagar e sem gírias como uma pessoa nativa de país de língua inglesa (americano, inglês ou australiano). Portanto, suas falas são mais fáceis de entender. Aqui na África do Sul, o sotaque é carregado, mas nos outros países que viajei (Namíbia, Zimbabue, Tanzânia) não.

O que eu estou querendo dizer é:

Viajar é a melhor maneira de aprender uma língua!

Ali, na prática. Na vida real. Sempre achei um tédio estudar Inglês no Brasil. Ficar sentada na cadeira, dentro de uma sala de aula 2 ou 3 vezes por semana, sem vislumbrar uma aplicação imediata. Sempre comecei um curso e sempre larguei. Nunca consegui completar um semestre.

Meu conselho é:

Viaje!

A África é Brasil!

De volta à Cidade do Cabo, para assistir aos jogos das quartas de finais da Copa do Mundo.

O Brasil perdeu a Copa, mas a África é Brasil!!

Triste assistir ao jogo do Brasil perdendo de 2×1 para a Holanda. O Brasil saiu da Copa. E a  festa acabou cedo :-(.

Mas foi muito bom presenciar a África do Sul torcendo para o Brasil. Na Fan Fest na Cidade do Cabo, vários sul-africanos com adereços brasileiros.

Na minha mochilada pela África, quando eu dizia que era do Brasil, todos falavam que torciam para o Brasil. O motivo? Kaká, Ronaldinho (aliás, ninguém estava satisfeito por o Ronaldinho não ter sido escalado) e também o samba, a festa e alegria do povo brasileiro.

Além de o Brasil deter o título de pentacampeão no futebol, os africanos também mencionavam os jogadores negros como um fator de simpatia pela seleção brasileira. Identificação identitária.

É muito prazeroso ver outro povo torcendo pela sua terra, valorizando a sua cultura.

Senti uma enorme satisfação. E meu orgulho de ser brasileira só aumentou!

Nairobi, Quênia

Monte Kilimanjaro. Da janela do avião.

Minha estada em Nairobi, capital do Quênia, foi rápida. Estive lá apenas um dia, para pegar o voo de volta para a África do Sul.

Peculiar foi fazer safári em pleno centro urbano. O Parque Nacional Nairobi está no coração da cidade. Enquanto se brinca de game drive, procurando leões, girafas, avestruz, búfalos, avistam-se arranha-céus no horizonte.

A paisagem não é tão bonita comparando-se com os outros parques da África, onde eu fiz safári, mas, para quem está de passagem, vale a pena a visita.

Fiz o safári num carro de passeio. Emocionante foi quando encontramos uma manada de búfalos. Como não é tão comum encontrar búfalos, ficamos quase 1 hora apreciando os animais e eu fazendo milhares de cliques com a minha tele 70-300 mm. Acho que o búfalo se cansou da minha teleobjetiva apontada para ele e ameaçou nos atacar. O motorista entrou em desespero. Queria arrancar o carro. Eu pedi-lhe esperar mais um pouco. Ele concordou e esperou uns 2 minutos. Búfalo é o animal mais perigoso dos big five da África. Segundo o motorista, já aconteceu de um búfalo quebrar o vidro de um carro. Na segunda olhada mais ríspida do animal, ele engatou a primeira e bateu em retirada. Pura adrenalina! (risos)

Para curtir uma girafa bem de pertinho, Giraffe Centre também vale uma rápida visita. Você vira criança de novo ao dar comida na boca da girafa. É divertido. O Centro foi criado com o objetivo de preservar esta espécie e recuperar a quantidade de girafas na vida selvagem. As girafas, quando adultas, são libertadas nos parques do Quênia.

Para finalizar o dia, uma paradinha no Maasai Market para levar uma lembrança da África. Há vários mercados com o artesanato Maasai espalhados em Nairobi.

Grande emoção foi avistar, da janela do avião, o Kilimanjaro furando o mar de nuvens. Ele imponente, sozinho, quase na mesma altura do avião… Vibrei só de imaginar que eu estive ali… quase no céu…!

Búfalo, ameaçando nos atacar… Batemos em retirada!! (risos) Parque Nacional Nairobi.
Alimentando a girafa.
Kilimanjaro despontando no mar de nuvens, ao fundo.

Eu amei a Tanzânia

Eu amei a Tanzânia. Os africanos da Tanzânia são muito amáveis, sorridentes, prestativos. Adoram uma conversa. Passei um mês lá. Só encontrei simpatia e gentileza no meu caminho. Posso ser uma menina de sorte… mas acredito que todas as pessoas bacanas, que encontrei, não são frutos somente da sorte. Os olhares e sorrisos amigos, para mim, foram reais. É um pequeno recorte de um povo gentil e pacífico.

Adorei a diversidade cultural e a beleza natural da Tanzânia. Em Zanzibar, tive uma pequena introdução ao mundo mulçumano. Desfrutei das águas quentes e azuis-turquesa do oceano índico. Lá, encontrei também um pouco do Brasil, dançando com os africanos nas full moon parties, assistindo aos shows acrobáticos, cujos movimentos se assemelham muito à capoeira. Em Arusha, embora a cidade assuste num primeiro momento, muita gente na rua, ambulantes, transeuntes, o guarda do caixa eletrônico sempre era simpático comigo, puxava assunto e falava que eu era muito bem-vinda. Em Moshi, a mesma coisa, a simpatia do povo ofusca a primeira impressão com o caos e pobreza da pequena cidade. Andava na rua sozinha e todos me cumprimentavam com um sorriso no rosto e uma gratuidade no olhar. Sempre ouvia perambulando pelas ruas: “Mambo” (“olá” em Swahili). “How are you? my sister”. Senti-me muito segura e acolhida mochilando sozinha na Tanzânia.

Amei este país e a hospitalidade do seu povo.

Os verdadeiros heróis do Kilimanjaro

Os verdadeiros heróis do Kilimanjaro são os porters (carregadores).

Sem eles, impossível chegar ao cume.

Cada porter carrega até 20 kilos. Este limite é fruto de um acordo com o sindicato da categoria. Os porters carregam tudo o que você precisa: comida para os 6 dias da expedição, barraca de dormir, seu pertences pessoais (saco de dormir, roupas), barraca de comer, mesa, cadeira (o que, aliás, é um luxo). Cada montanhista necessita em média 4 porters.

Confesso que o sentimento é dúbio. Ao mesmo tempo que o turismo no Kilimanjaro é uma oportunidade de emprego, de geração de renda, por outro lado, é um trabalho árduo. Dá dó ver os porters carregando todo aquele peso na cabeça…

Segundo meu guia Godlive Mgana, a Ashante Tours (com quem eu fiz a expedição) respeita o limite de peso. Ele não soube me afirmar se os 20 kilos estão dentro de limites aceitáveis para a saúde do corpo humano, isto é, se foi estipulado por algum órgão fiscalizador das condições de trabalho.

Os carregadores são, sem dúvida, os verdadeiros heróis desta aventura!!

O guia também é fundamental, principalmente no momento de ataque ao cume, onde se começa a sentir o ar rarefeito. Palavras encorajadoras nesta hora são muito importantes!

Agradeço, de coração, o meu time por ter me levado ao topo da África! Sem vocês, eu jamais teria chegado lá!!

Ashante Sana !!

(que significa “muito obrigada”, na língua swahili)

John, carregador e cozinheiro, 24 anos.
Michael, carregador e gerente do camping, 22 anos.
Priva, carregador e garçom, 22 anos.
Paulo, carregador, 25 anos.
GodLive Mgana, guia, 28 anos.

Kilimanjaro: Brasil no topo da África!

Seis dias de caminhada pesada até o topo da África. O visual e a sensação de estar sobre as nuvens compensa todo o esforço. O Monte Kilimanjaro, formado por três picos – Uhuru, Mawenzi e Shira, é o ponto culminante do continente africano, sendo Uhuru seu ponto mais alto com 5.895 metros.

A porta de entrada ao Kilimanjaro é Moshi, na Tanzânia. Cidade de pequeno porte, porém servida com o aeroporto internacional. Outra opção é chegar por estrada por Arusha, cidade de médio porte e há 1 hora e meia de Moshi.

O trekking até o topo do Kilimanjaro é uma excelente pedida tanto para trekkers que curtem uma boa caminhada como para montanhistas que querem se iniciar em desbravar elevadas altitudes. A caminhada não requer conhecimentos técnicos de escalada em rocha ou gelo. É preciso sim um bom condicionamento físico, muita determinação e pensamento positivo.

Pico Uhuru.

Há 2 trilhas principais até o Pico Uhuru: rotas Marangu e Machame. A menos pesada, que exige menos fisicamente, é a rota Marangu – apelidada de trilha Coca-Cola, por ser leve. A rota Marangu, no entanto, não é considerada boa para aclimatação, pois atingem-se elevadas altitudes rapidamente, em 4 dias. A rota Machame é mais pesada, sendo, por esta característica chamada de trilha Whisky.

Embora mais árdua, a rota Machame é recomendada pelas maiores chances de se conseguir uma aclimatação adequada e, por conseguinte, uma expedição bem-sucedida com o alcance do cume.

Segundo os guias locais, cerca de 85% dos turistas que optam pela rota Machame atingem o cume, enquanto que na rota Marangu apenas 65%. Os demais são acometidos pelo mal de altitude e obrigados a descer.

Os principais sintomas do mal de altitude são dor de cabeça constante, perda de apetite, náuseas, vômitos, vertigens, dificuldade respiratória, insônia. É importante destacar esse ponto, pois embora o trekking ao topo do Kilimanjaro seja acessível para turistas sem experiência em montanhismo, sem conhecimento de escalada, pode ser fatal em virtude da elevada altitude. Em casos extremos, o mal de altitude pode ocasionar edemas pulmonar e cerebral.

Os primeiros sintomas do mal da montanha surgem a partir do 3.500 metros. A recomendação do guia é manter o corpo bem hidratado para conseguir uma boa aclimatação e evitar a doença. O ideal é beber de 5 a 6 litros de água por dia. Se os sintomas não desaparecerem, o procedimento para recuperar o equilíbrio corporal e conseguir aclimatar-se é descer alguns metros. Se, ainda assim, os sintomas persistirem, deve-se descer imediatamente e abandonar a excursão.

A rota Machame oferece maiores chances de aclimatação. São 5 dias para atacar o cume – 1 dia a mais do que a rota Marangu – e o percurso é ascendente e descendente – o que é melhor para aclimatação, enquanto a rota Marangu é sempre ascendente. Além disso, a rota Machame é considerada mais bonita, cinematográfica, por contornar a montanha do que a rota Marangu que sobe direto por uma das cristas da montanha.

Eu optei pela rota Machame. O primeiro dia inicia-se em 1.800 metros de Machame Gate e sobe-se até Machame Camp a 3.000 metros. O segundo dia, sobe-se até 3.820 metros em Shira Camp. O terceiro dia, sai-se de 3.820 metros, sobe-se até 4.600 metros em Lava Tower e depois desce-se a 3.972 metros em Barranco Camp. Este é considerado o melhor dia para propiciar uma boa aclimatação, pois o corpo é levado à altitude superior (4.600 metros) e depois inferior (3.972 metros), o que amplia a possibilidade de adaptação. O quarto dia, também por um trajeto de subidas e descidas, chega-se, por volta das 16hs, ao campo-base Barafu Camp, a 4.660 metros.

Último acampamento Barafu Camp, a 4.660 metros, antes do ataque ao cume.

À meia-noite, já quinto dia, inicia-se a caminhada rumo ao cume. A passada é lenta, “pole pole” (que significa “devagar, devagar” na língua swahili) e constante. Não se pode parar por um longo tempo, senão o corpo congela. Apenas pequenos descansos de 1 a 2 minutos. A temperatura gira em torno de 7 graus negativos no sopé do Pico Uhuru. São cerca de 5 a 6 horas caminhando, por uma encosta íngreme, até chegar a Stella Point, início do platô. O ideal é chegar em Stella Point no nascer do sol, entre 5:40 e 6 h, para apreciar o espetáculo da natureza. Mais 40 minutos de caminhada sobre o platô e atinge-se o topo da África!

Eu e o guia iniciamos o trekking de ataque ao cume às 23:30 h, trinta minutos antes do horário usual de saída. A caminhada começou prazerosa. Céu estrelado. Noite de lua cheia. Uma suave brisa acariciava o meu rosto. Uma gostosa sensação de caminhar entre as estrelas, com a lua do seu lado, bem pertinho de você. Um indescritível prazer de caminhar no céu… Passadas algumas horas, o frio tornou-se congelante, o vento cortante. O corpo começou a dar os primeiros sinais de cansaço. Um embrulho no estômago… mas eu não podia parar. Depois 5 dias de caminhada pesada, há apenas poucas horas do meu objetivo, eu não podia desistir…

Nessas horas, pensamento positivo, determinação e palavras incentivadoras do guia são fundamentais. Continuei. Pole pole… As pequenas paradas para descanso se intensificaram. Precisava recarregar as energias, recuperar o fôlego e seguir. Chegamos às 4:40 h em Stella Point, antes do nascer do sol. Só eu e o guia ali imersos na escuridão. Um vento cortante, de congelar os dedos… Fazia em torno de 15 graus negativos. Continuamos. Não esperamos o sol despontar no horizonte. O frio não permitia parar. Senão, congelaríamos.

Chegamos em Uhuru, o ponto culminante a 5.895 metros, às 5:35 h, ainda era noite. Fui a primeira a atingir o cume. O auge deste esperado momento foi tirar a bandeira do Brasil da mochila e fazer a foto da conquista! Não foi nada fácil chegar lá em cima. Sim, para mim, foi um grande feito!

Infelizmente, o frio estava congelando os meus dedos, o sol ainda não havia nascido. Não pude contemplar a beleza dos glaciares sem pressa, até meus olhos se extasiarem com o esplendor da natureza. Tamanho o frio que perdi a sensibilidade de alguns dedos. Eu precisava descer urgente, para esquentar a ponta dos meus dedos da mão e o dedão do pé.

Embora não tenha curtido o cume como eu gosto, valeu a pena. Minha dica é não sair antes da meia-noite, para chegar lá sob o calor do sol e desfrutar do belo visual e merecidíssimo momento!!

Após o cume, desce-se de 5.895 metros até Mweka Camp, a 3.100 metros. São mais cerca de 6 horas de caminhada. O quinto dia é o mais extenuante. Caminha-se da meia-noite até o meio-dia. O sexto dia é mais leve, em torno de 5 h, chega-se a Mweka Gate, a 1.660 metros.

Normalmente, as operadoras locais oferecem pacotes de 6 e 7 dias para a rota Machame e 5 dias para a rota Marangu. Eu fiz Machame em 6 dias, mas recomendo 7 dias. É menos puxado. E mais contemplação.

Quem dispuser de mais uns dias, imperdível fazer safári na área de conservação ambiental Ngorongoro, nos parques nacionais Lake Manyara e Serengeti, e visitar a tribo Maasai Olpopongi, para conhecer um pouco da cultura tradicional.

Quando ir: de junho a setembro.

Quem leva:

http://www.ahsantetours.com

http://www.zaratours.com

De avião:

Precision air www.precisionairtz.com

Coastal Aviation www.coastal.cc

Air Tanzania www.airtanzania.com

KLM www.klm.com

Zanair www.zanair.com

Quanto custa: 1.200 dólares.

O que levar:

• mochila de 50 L e capa de chuva para mochila

• filtro solar, boné e óculos de sol

• blusa e calça segunda pele

• casaco fleece

• 3 camisas de tecido respirável

• 2 calças respiráveis

• casaco e calças impermeáveis

• 3 pares de luva

• 4 pares de meias

• gorro e balaclava

• bota de caminhada resistente à água

• bastões de caminhada

• máquina fotográfica e baterias extras

Nota: Quanto ao saco de dormir e jaqueta próprios para extremas temperaturas, é possível alugar junto à operadora de turismo.

Acampamento Shira.

Visual do cume do Kilimanjaro, descendo depois da conquista.

Glaciares. Visual do cume antes do nascer do sol.

I

Eu, Glória, 35 anos.

Tribo Maasai

Maasai é uma das centenas de tribos da Tanzânia. Povo, originalmente do Egito, migrou entre os séculos XVI e XVIII ao longo do rio Nilo e Sudão até o norte da Tanzânia e sul do Kênia.

A recepção para os que visitam a tribo Maasai Olpopongi é calorosa. Logo na chegada, os Maasais recebem os turistas cantando uma música de boas-vindas. “Muito feliz por receber você na terra Maasai. Você é muito bem-vindo. Sinta-se em casa”.

A renda do turismo é utilizada na compra de água, remédios e construção da escola primária.

A função social dos homens é definida por faixa etária. Os homens, entre 30 e 40 anos, por exemplo, são responsáveis por manter uma política de boa vizinhança com os clãs vizinhos. Ou seja, manter a paz entre os Maasais.

Os homens, entre 40 e 60 anos, são os responsáveis por manter a cultura Maasai. Para tanto, cuidam do aprendizado dos jovens. Também, possuem a função de garantir a segurança das famílias e proteger os interesses do clã. Os líderes são escolhidos nesta faixa etária. Para ser um líder, deve-se ter as seguintes habilidades: capacidade de gerenciar pessoas, resolver os problemas da tribo e ajudar as pessoas em seus problemas.

Os homens mais velhos, entre 60 e 80 anos, criam as regras para manter a cultura Maasai, selecionam os líderes e possuem sempre a palavra final.

Já as mulheres são responsáveis por cuidar das crianças e preparar as meninas para tornarem-se esposas após a circuncisão feminina entre 15 e 18 anos. Hoje, a circuncisão feminina está proibida na Tanzânia. As mulheres têm, ainda, a função social de coletar lenha, carregar água (normalmente, carregam água na cabeça por longas distâncias), cuidar da horta, fazer comida e construir as casas. Atualmente, desde o ano 2.000, as mulheres também fazem o artesanato (colares, pulseiras, brincos) para vender no mercado.

Na organização social, as mulheres trabalham mais duro do que os homens. Entre 60 e 80 anos, os homens, por exemplo, podem decidir aposentar-se, isto é, parar de executar seu papel social, enquanto as mulheres, nesta mesma faixa etária, continuam trabalhando.

Um homem pode ter mais de uma esposa, se ele conseguir sustentá-las. Cada mulher tem de ter a sua própria casa. O gado é a principal fonte de renda dos Maasais. Segundo o guia Kimani de 28 anos: “Se o homem tiver muita cabeça de gado, ele pode ter muitas mulheres, quatro, cinco…”.

A tribo Maasai Olpopongi dista cerca de 80 Km de Moshi e Arusha. É possível fazer um tour de 1 dia ou pernoitar na tribo.

Noomunderen de 87 anos.

Nano de 27 anos.

Museu.

Roupa usada pelo jovem durante a cerimônia de circuncisão masculina, ainda praticada.

Escudo para proteger dos animais. O desenho tem a forma de uma boca com dentes para confundir o animal.

Língua Maasai.

Árvore Olpopongi, nome homônimo da tribo.

Ao fundo Monte Meru, com 4.566 metros.

Kimani.

Como ir: http://www.olpopongi-maasai.com

Safári na Tanzânia

Cheguei no Backpacker em Arusha, na Tanzânia, num domingo. Tudo estava fechado na cidade.

O Backpacker, em plena Copa do Mundo, estava vazio. Claro!

Todos os mochileiros estavam na África do Sul.

“Será difícil marcar um safári para amanhã”, conversei comigo mesma.

Eu tinha somente dois dias livres antes de subir o Kilimanjaro, para fazer um safári.

Para a minha sorte, cinco minutos depois de chegar no albergue, na recepção, encontrei Marjolein, 24 anos, da Holanda – outra aventureira romântica! (risos)

Marjolein também dispunha de dois dias para fazer safári e estava procurando alguém para formar um grupo e dividir os custos.

Eu chamo este encontro de sincronicidade.

Nós duas num backpacker vazio, em plena Copa do Mundo, dispondo dos mesmos dias livres, querendo fazer a mesma coisa. Encontramo-nos como num passe de mágica.

Estes encontros fortuitos são os melhores momentos de uma viagem independente. A causalidade do destino é algo mágico, inexplicável e muito prazeroso. É como se existisse algo intangível guiando nossos passos e mexendo os pauzinhos para que pessoas afins se encontrem neste Planeta.

Para mim, que estou numa fase mística na minha vida, adoro estes encontros casuais e cheios de simbolismo.

Era por volta de 14 hs da tarde, eu e Marjolein falamos com um rapaz do albergue, que trabalha como agente de turismo, para ele nos encaixar em algum safári no dia seguinte. Ele explicou que não seria fácil porque era domingo. Explicamos que não poderíamos perder a segunda-feira sem fazer nada, tínhamos exatos 2 dias em Arusha, depois teríamos de partir.

Os safáris na Tanzânia são feitos, comumente, em veículos 4×4, para grupo de 4 pessoas. Poderíamos fazer só nós duas, mas teríamos de pagar o preço full para 4 pessoas. De vez em quando, mochileiros até fazem extravagâncias. Mas se feitas, constantemente, quebra o orçamento de viagem.

Para quem pretende viajar por um longo tempo, é preciso negociar e buscar o menor custo. Negociando sempre um preço justo para ambas as partes.

No início da viagem, não estava negociando os preços, pois, na minha visão, pagar um pouco mais é uma forma de distribuir renda. Para mim, é difícil estar na África, um continente que foi tão expropriado de suas riquezas, e pechinchar…

Muitas vezes sei que estou pagando acima do preço normal. Sinto-me como uma turista estrangeira em Copacabana no Rio de Janeiro. É difícil regatear, movida por um sentimento de compaixão, com pessoas numa condição desfavorecida. Só que há uma hora que você cansa de ser vista e tratada como uma turista. Comecei a negociar os preços.

Marjolein e eu.

Saímos do albergue com a promessa do rapaz da recepção de que iria encontrar um grupo para nós. Um pouco antes de sair, já nas portas do albergue, a recepcionista me perguntou se eu não preferiria outra operadora mais barata. Eu disse sim e perguntei-lhe o nome da operadora. Ela foi evasiva. Não respondeu. Saímos. Demos alguns passos na rua. A poucos metros do Backpacker, um jeep nos abordou, perguntando-nos se estávamos querendo fazer safári em Ngorongoro. Ele foi enviado pela recepcionista – com certeza. Tentamos negociar o preço para duas pessoas. Mas para a Área de Conservação Ngorongoro somente preço full. Metade do preço, somente para o Parque Nacional Arusha. Com o orçamento apertado, fechamos o safári no Parque Nacional Arusha. Avisamos o motorista do jeep que, se ele conseguisse mais 2 pessoas, iríamos para Ngorongoro.

Voltamos para o Backpacker e o rapaz do albergue falou que tínhamos fechado com uma excelente operadora. A recepcionista olhou a cena sem falar nada. À noite, enquanto jantávamos, um homem nos abordou no Backpacker falando que havia sido enviado pelo motorista do jeep, que comentou que preferíamos fazer safári em Ngorongoro. Disse que tinha um grupo para Ngorongoro e que poderíamos fechar o safári com ele, pois o motorista do jeep estava de acordo. Achamos estranho. “Por que será que o motorista do jeep abriu mão do passeio? de ganhar dinheiro?… Devem ter algum acordo”, comentamos. Bom, fechamos o safári em Ngorongoro.

Na manhã seguinte, dois jeeps foram nos buscar na porta do Backpacker. O homem do jantar foi esperto e chegou cedo para nos apanhar. O outro jeep chegou depois, quando nos telefonou, já estávamos longe. Aí nos demos conta que entramos nas estatísticas do Lonely Planet. O guia alerta para tomar cuidado com as empresas que oferecem safári nas ruas, porque os jeeps costumam ser velhos, quebram, e o combustível não é suficiente.

Foi desagradável a sensação de ter sido enganada, tanto por nós como pelo motorista do outro jeep. Depois nos demos conta que o motorista do jeep, que nos abordou na rua, também passou a perna no rapaz do albergue, com quem falamos primeiro. Enfim, foi uma cadeia… Luta pela sobrevivência.

Como não poderia deixar de ser, seguindo as estatísticas do Lonely Planet, o jeep quebrou…! (risos).

Segundo o motorista, isso faz parte da aventura.

É a “real African experience”, explicou.

What?!, perguntamos para nós mesmas.

No final, o saldo foi positivo para nós duas. Fizemos safári onde queríamos:

Parque Nacional Lake Manyara e Área de Conservação Ngorongoro, por metade do preço.

Imperdíveis!!

A riqueza da vida animal e a paisagem belíssima!

E, claro, a aventura inesquecível!! Sem adrenalina, não há graça 🙂

Parque Nacional Lake Manyara.

Área de Conservação Ngorongoro.

Área de Conservação Ngorongoro.

Onde ficar: http://www.arushabackpackers.co.tz

Quem leva: http://www.zaratours.com, http://www.leopard-tours.com

De avião:

http://www.precisionairtz.com

http://www.coastal.cc

http://www.airtanzania.com

http://www.zanair.com