O retorno para casa e o filme Odisseia

Assisti no último domingo ao filme Odisseia, do diretor Christopher Nolan. A jornada épica de Odisseu e suas dificuldades e reflexões sobre voltar para casa depois de uma jornada transformadora mexeram comigo. Mochilei por um período de 2 anos, tendo retornado para casa no meio do percurso. Permaneci na África por 10 meses. Regressei 3 meses para casa para passar o período do Natal e Ano Novo com a família. O que foi muito bom pois pude me despedir da minha avó Nilza que fez a passagem nesse curto período em casa. Depois viajei para Ásia e continuei minha jornada de autoconhecimento por mais 11 meses. Quando parti não sabia o que iria encontrar, nem sabia ao certo o que buscava ou me motivava. Fui vivendo cada dia mergulhada profundamente no tempo presente. Vivi intensamente cada momento. Vivi com profundidade e sinceridade as relações com as pessoas que fui encontrando no caminho. Tudo foi muito intenso e verdadeiro. A viagem foi me transformando sem eu perceber. Longe da rotina e dos papéis e identidades fixas de trabalho, obrigações familiares ou sem corresponder às expectativas dos amigos e conhecidos, vivi plenamente a liberdade de ser quem eu sou na essência. A viagem tornou-se uma viagem de autoconhecimento sem eu mesma me dar conta disso. Foi um processo de transformação natural e espontâneo. Daí a origem do título do meu livro “Essencial”, minha viagem em busca de mim mesma e da essência da alma humana e dos lugares. Após 2 anos mochilando, em março de 2012, regressei para a casa, para o trabalho, voltei para os mesmos lugares, onde as pessoas conheciam uma Michelle que já não existia mais, eu era outra. De fato, como no filme, hesitei ao retornar. Mas não dá para fugir da sua vida e não encarar os desafios das relações humanas. A viagem não foi fuga, foi um tempo necessário em que eu precisava partir para me encontrar. Mas continuar viajando seria fuga. Eu já desejava me fixar num lugar, retornar à rotina. O choque foi inevitável. Foi um período muito longo de turbulências e aridez. As expectativas das pessoas sobre mim, sobre a minha viagem e sobre quem eu era, entraram em conflito com o meu novo ser que desabrochou. Houve lutas das identidades antigas e novas. Como a música de Gilberto Gil, “o amor tem que morrer para germinar”, minha identidade antiga morreu e a nova também quem eu achava que era depois da viagem, até surgir a nova pessoa que me tornei hoje, depois de longos 14 anos desde que regressei. Eu não viajei para fazer uma aventura ou conhecer lugares turísticos. Fiz uma imersão na cultura dos povos por onde passei, conheci muitos modos de vida e filosofias diferentes do que eu tinha como certo no mundo ocidental do Brasil colonizado por europeus e com influência norte-americana. Conhecer outras culturas nos torna muito mais abertos à diversidade e nos leva a descobrir que não existe um só estilo de vida que seja o certo, o verdadeiro. Cada cultura com suas nuances mostra sua sabedoria e filosofia. A Michelle antiga morreu para renascer uma nova pessoa, mais sábia com os acertos e erros das experiências passadas que me permitiram chegar aqui, com quase 52 anos bem vividos.

Há momentos em que é preciso coragem para partir. Há momentos em que partir é a nossa única opção.

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